ARTIGO

Não invistam no Brasil

Verônica Pimentel, CEO da Oryx Capital

publicidade

Por que não investir no Brasil pode ser uma decisão de diversificação — e não de pessimismo

Investir é, antes de tudo, uma decisão sobre o futuro. E, quando analisamos as perspectivas de longo prazo para o patrimônio de nossos clientes, uma pergunta se torna inevitável: por que concentrar investimentos no Brasil quando existem oportunidades em mercados mais maduros, diversificados e previsíveis?

Nossa resposta tem sido clara: a carteira dos clientes deve ter uma parcela relevante e, em muitos casos, predominante, alocada em ativos internacionais. Não se trata de uma rejeição ao Brasil, tampouco de uma aposta contra a economia brasileira. Trata-se de entender que patrimônio, especialmente aquele construído ao longo de décadas, precisa estar protegido.

O primeiro ponto é a relação entre risco e retorno. O Brasil é conhecido historicamente por oferecer taxas de juros elevadas. Isso pode parecer, à primeira vista, uma vantagem para o investidor local. Mas é preciso olhar para o custo dessa realidade. Durante longos períodos, a Selic entregou retornos bastante competitivos e, em diferentes janelas, superou com folga o desempenho do Ibovespa. 

Ou seja, o investidor brasileiro muitas vezes encontrou nos instrumentos de renda fixa uma remuneração superior àquela oferecida pelo mercado acionário doméstico.

Esse fenômeno diz muito sobre o ambiente brasileiro. Juros estruturalmente elevados não são apenas uma oportunidade para quem investe em renda fixa. Eles também refletem um prêmio de risco associado à economia, às contas públicas, à inflação, ao ambiente institucional e às incertezas que cercam as decisões econômicas.

Quando olhamos para a bolsa, o problema fica ainda mais evidente. O investidor que compra ações está, em tese, assumindo mais risco em busca de um retorno superior no longo prazo. O varejo brasileiro é um bom exemplo. Ao longo das últimas décadas, vimos sucessivas empresas enfrentarem crises financeiras, pedidos de recuperação judicial, reestruturações e, em alguns casos, desaparecimento do mercado. 

O cenário atual apenas reforça uma característica que não é nova: operar e investir no Brasil envolve conviver com ciclos econômicos intensos, mudanças regulatórias, alterações tributárias, juros elevados, inflação e uma instabilidade que pode mudar rapidamente as perspectivas de determinados setores.

Leia Também:  Você tem tempo para fazer o seu marketing?

Não significa que todas as empresas brasileiras sejam ruins ou que não existam excelentes oportunidades no mercado doméstico. Existem. O problema é outro: por que concentrar o patrimônio em um único país quando o investidor pode ter acesso a uma economia global?

Essa é a principal razão pela qual defendemos a internacionalização das carteiras.

Ao investir no exterior, o brasileiro deixa de depender exclusivamente do desempenho de uma única economia. Passa a ter acesso a empresas globais, diferentes setores, diferentes moedas e diferentes mercados de capitais. Pode participar do crescimento de companhias que atuam em tecnologia, saúde, infraestrutura, energia, consumo e diversos outros segmentos em escala mundial.

A diversificação internacional também funciona como uma forma de proteção patrimonial. Ter parte do patrimônio em dólar, por exemplo, significa não depender exclusivamente da trajetória do real. Em momentos de maior incerteza doméstica, essa exposição pode ajudar a reduzir a vulnerabilidade da carteira às oscilações da moeda brasileira.

É importante deixar claro que investir fora não significa simplesmente comprar dólar ou abandonar completamente os ativos brasileiros. A estratégia precisa considerar perfil de risco, horizonte de investimento, objetivos financeiros, necessidade de liquidez e composição patrimonial de cada cliente.

Mas existe uma diferença importante entre ter exposição ao Brasil e depender do Brasil. Para nós, essa distinção é fundamental. O investidor brasileiro já possui uma exposição natural ao país. Sua renda, sua atividade profissional, seus imóveis, seus negócios e suas despesas estão, em grande medida, vinculados à economia doméstica. Concentrar também os investimentos exclusivamente no mercado brasileiro pode ampliar ainda mais essa dependência.

A internacionalização permite fazer justamente o movimento contrário: equilibrar o patrimônio. É claro que os Estados Unidos e outros mercados internacionais também enfrentam riscos. Nenhum mercado está livre de crises, ciclos econômicos, correções ou problemas políticos. A diferença está na escala, na profundidade dos mercados e na possibilidade de diversificação. 

Leia Também:  O ano de provação dos políticos não pode prejudicar a economia

O investidor internacional pode distribuir seu patrimônio entre países, moedas, setores e classes de ativos, reduzindo a dependência de uma única realidade econômica. No caso brasileiro, ainda precisamos considerar os entraves que historicamente dificultam o planejamento de longo prazo. Mudanças de regras, incertezas fiscais, decisões políticas com impacto direto sobre a economia, volatilidade cambial e períodos recorrentes de crescimento baixo tornam mais difícil projetar o ambiente futuro.

E planejamento patrimonial exige justamente o contrário: previsibilidade. Quando penso nos próximos anos, não vejo razão para que o investidor brasileiro abandone o Brasil. Vejo, sim, razões cada vez mais fortes para que ele deixe de considerar o Brasil como seu único destino de investimento.

A melhor carteira não é necessariamente aquela que aposta que um país irá bem. É aquela preparada para diferentes cenários.

Se a economia brasileira crescer, ótimo. Parte do patrimônio estará posicionada para capturar esse movimento. Se houver instabilidade, uma parcela relevante estará protegida em outros mercados. Se o real se valorizar, haverá efeitos positivos e negativos a serem administrados. Se o dólar subir, a exposição internacional funcionará como uma proteção adicional.

Não se trata de prever o futuro. Trata-se de não depender de uma única previsão. Considerando o cenário brasileiro e as incertezas que ainda cercam os próximos anos, manter uma parcela significativa do patrimônio no exterior continua sendo, na nossa avaliação, uma das decisões mais importantes para quem busca preservar e ampliar riqueza no longo prazo.

Investir globalmente não é deixar de acreditar no Brasil. É reconhecer que o patrimônio de um investidor brasileiro pode, e deve, estar conectado ao mundo.

No fim, a pergunta não deveria ser “por que investir fora do Brasil?”. Deveria ser: por que limitar o patrimônio brasileiro às oportunidades de um único país?

Corporate Relações Públicas

COMENTE ABAIXO:

Compartilhe essa Notícia

publicidade

publicidade

publicidade

publicidade